João José, o Professor

RESUMO

João José, mais conhecido por Professor (Bahia, 19 de junho de 1920), é um grande pintor brasileiro. É conhecido por suas obras na cidade do Rio de Janeiro e por criar um projeto de arte ao qual deu o nome de “Escola de Arte Capitães da Areia”, na cidade de Salvador, BA, onde meninos de rua tinham direito à alimentação, à moradia, à educação e à oficina de arte (pintura e outros tipos de arte plástica).

Órfão de pai e mãe, João José, integrou-se ao grupo Capitães da Areia (meninos de rua), morando nas ruas desde o nascimento até parte de sua adolescência. Apaixonado por leitura e com grande talento para a pintura, foi descoberto por um senhor de boa aparência que percebeu o seu talento pela pintura e o levou para o Rio de Janeiro, onde Professor se tornou um grande pintor. Anos depois fundou a Escola de Arte Capitães da Areia, na Bahia. Criou sua primeira obra aos 18 anos, ganhando destaque como pintor a partir de 1941, quando lançou sua primeira exposição de arte “As Duas Faces da Rua”. Ganhou o prêmio de melhor artista plástico daquele ano.

Casou-se com a camareira Doralice, por quem se apaixonou numa estadia em um dos hotéis da linda cidade Aracaju. Com ela, teve 2 filhos: Ana e Radhuan.

BIOGRAFIA

João José

Um dos integrantes do Capitães da Areia, João José recebeu o apelido de “Professor” porque através de suas mágicas e seus contos fazia os demais viajarem e serem transportados para os mundos diversos. Ele era o único que lia corriqueiramente, mesmo estado pouco tempo na escola. Contava histórias de aventureiros, homens do mar, personagens históricos e lendários. Nunca vendia seus livros; pelo contrário, lia-os com ansiedade. Para tornar-se contador de histórias e ter tal apelido precisou roubar livros.

Personalidade

Para Pedro Bala, o líder do Capitães da Areia, a imaginação do Professor era uma inspiração para os seus planos de roubo. Através de suas leituras, fazia os meninos se encantarem pelos contos dos cangaceiros e seus atos de “heroísmo”. Certa vez, no meio da noite, Professor foi acordado por Volta Seca, um dos seus amigos, para ler uma notícia de jornal que relatava a ação de Lampião, numa vila da Bahia: “matara oito soldados, deflorara moças, saqueara os cofres da Prefeitura” (p.44). Após a leitura, Volta Seca “foi para o seu canto. Levou o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampião. Dentro dele ia uma alegria de primavera” (p. 44).

Outra característica do Professor era pensar antes de falar. Para recusar um convite do padre, ele foi o responsável para falar sem magoar. Falou pausadamente, “escolhendo as palavras, pensando que aquele era um momento delicado” (p. 69). Ele também sabia desenhar e no parque desenhou seu amigo Volta Seca vestido de cangaceiro, colocando também o carrossel no desenho e o deu de presente ao padre. Às vezes ganhava dinheiro desenhando na calçada as pessoas que passavam e riam do desenho, achando até “parecido”. Seu talento era tal que muitos criticavam o Governo em não dar uma chance para que ele desenvolvesse o seu talento e vocação. Outra ocasião, apareceu em sua frente um homem com um enorme sobretudo. Ele não pensou duas vezes em desenhá-lo, fazendo com o seu sobretudo fosse maior que o homem. Quando concluiu, riu do seu próprio desenho. O homem ao perceber que se tratava dele, reclamou e o espancou. O professor, inconformado com a situação, seguiu o homem e, com uma navalha, talhou sua mão, pegou o sobretudo e o guardou como lembrança, junto ao ódio.

Uma característica marcante na vida do Professor foi a proteção dada a um casal de irmãos, órfãos, encontrados na rua. Por não terem onde ficar, Professor e mais dois amigos os levaram ao trapiche para se abrigarem. Os demais meninos desejaram ardentemente a menina de apenas 13 anos, e ele se opôs ao ponto de abrir sua navalha e ameaçar os meninos. Convenceu Pedro Bala, o chefe, de que ela era somente uma menina que precisava de abrigo. Desta forma, Dora ficou protegida e ninguém poderia tocar nela. Por seus olhares meigos, Professor se apaixonou secretamente.

Seu Olhar Artístico

No seu olhar de artista, Professor via nas pessoas um olhar triste. A beleza da paisagem, da natureza de Salvador trazia alegria e muitas cores, porém, na feição das pessoas, Professor via apenas tristezas, mágoas, fome. Acreditava que se tivesse “tado numa escola (…) tinha sido bom (…) com gente alegre andando, rindo…” (p 117). Lembrou-se de um dia ter entrado, como penetra, na Escola Belas Artes e ficou vislumbrado com a forma que os artistas desenhavam e pintavam. Dessas palavras, Pedro Bala teve uma ideia de unir o pessoal e pagar aula ao seu amigo – o que foi descartado pelo próprio Professor.

Sempre andava com um pedaço de giz no bolso, de onde tirava para desenhar as pessoas que andavam pelas ruas, conseguindo assim uns trocados. Em momento como estes, desenhou um senhor bem arrumado que passava com um livro na mão e com um cigarro na outra. Porém, o professor o desenhou sentado lendo o livro. Isto e o fato de não ter tido aula de desenho, chamou a atenção do homem, que lhe entregou um cartão e marcou um encontro em sua casa. Mas um guarda se aproximou e os meninos fugiram sem dar explicação; assim, o próprio guarda ficou sobre a responsabilidade de alertar o homem de que eram “ladrões” do grupo Capitães da Areia. E sobre o cartão? Eles jogaram fora dizendo não acreditar que algo poderia realmente mudar suas vidas.

Despertar para o Sucesso

Após a morte de Dora, seu amor secreto, Professor não teve mais motivos nem motivação para continuar no trapiche. Lembrou-se do homem que lhe entregou um cartão com endereço, o qual jogou fora, e manteve relações amigáveis com ele. Certo dia, decidiu ir embora. “Que adianta a vida da gente? Só pancada na polícia quando pegam a gente. Todo mundo diz que um dia pode mudar (…) agora vou mudar a minha” (p. 196). No momento de sua partida, num navio para ser artista no Rio de Janeiro, sente que sua coragem ficou com os Capitães da Areia, porém, com amor à liberdade.

Culminância

Tempos depois, “o ‘Jornal da Tarde’ publica um telegrama do Rio dando conta do sucesso da exposição de um jovem pintor até então desconhecido. (…) Um trecho da crítica de arte, após falar das qualidades do pintor social, de usar e abusar de expressões como clima, luz, cor, ângulos, força e outras mais, diz: ‘…um detalhe notaram todos que foram a essa estranha exposição de cenas e retratos de meninos pobres. É que todos os sentimentos bons estão sempre representados na figura feminina de uma menina magra de cabelos loiros e faces febris. E que todos os sentimentos maus estão representados por um homem de sobretudo negro e um ar de viajante. Que representará para um psicanalista a repetição quase inconsciente dessas figuras em todos os quadros? Sabe-se que o pintor João José tem uma história …’” (p.226).

Saudades

Anos se passaram e mesmo depois de ter ido para o Rio de Janeiro, João José (Professor), o renomado pintor, não apagou as lembranças que ficaram registradas em sua memória enquanto foi membro dos Capitães da Areia. Lembrou-se, inclusive, de uma conversa com um de seus amigos, o Pedro Bala, na qual este dizia que o Professor, com o talento que tinha com a pintura, poderia se tornar um grande artista e, com isso, poderia ajudar seus amigos a saírem daquela vida de ilicitude. Mediante essas lembranças, Professor resolve voltar à Bahia e saber notícias de alguns amigos que deixou para trás, com a sua ida para o Rio de Janeiro. Em meio à busca por informações, observou que os Capitães da Areia (meninos de rua) da sua época ainda existiam – composto por outros membros – e as histórias eram semelhantes às da sua época, sendo este um problema que não tinha tempo para acabar, porém a comunidade não despertava interesse em construir algo que os tirassem daquela vida de abandono.

Promessas Cumpridas

Ao caminhar pelas ruas da Bahia pensou em algo que pudesse fazer para amenizar o sofrimento dos novos Capitães da Areia e contribuir para que muitos outros talentos fossem revelados, assim como aconteceu com ele mesmo. Assim, resolveu criar um projeto de arte ao qual deu o nome de “Escola de Arte Capitães da Areia”, onde meninos de rua tinham direito à alimentação, à moradia, à educação e à oficina de arte (pintura e outros tipos de arte plástica). A escolha por esse projeto fez jus à ideia de seu amigo Pedro Bala. O projeto foi colocado em prática e acabou fazendo a alegria de muitos, mas a vontade de encontrar um amigo da época em que fez parte do Capitães da Areia não ficou para trás.

Um dia andando pelo calçadão frente à praia, parou em uma banca de revistas e pediu um jornal, no qual tinha um noticiário sobre um grevista, cujo apelido era Pedro Bala, ex- Capitão da Areia. Sua alegria foi tremenda e logo procurou saber onde encontrá-lo. Para sua surpresa, Pedro Bala estava em Sergipe, na cidade de Aracaju, e Professor não exitou em ir ao seu encontro. O encontro foi marcado por emoções, pois ambos perceberam que lutavam pela mesma causa (uma condição digna aos olhos da sociedade para os meninos de rua) e que as promessas foram cumpridas.

Novo Amor, Vida Nova

Para a alegria ser completa, o Professor precisava encontrar um amor para dividir as sua alegrias e logo conheceu uma aracajuana de cabelos negros, olhos amendoados, chamada Doralice, que trabalhava como camareira no hotel que ficou hospedado durante os dias que ficou em Aracaju. Os dois não perderam tempo e logo se renderam aos sentimentos. Casaram-se, tendo Pedro Bala como padrinho de honra.

Dias depois foram para o Rio de Janeiro. O projeto deixado na Bahia continua sendo administrado por ele até hoje, aos 94 anos de idade.

REFERÊNCIA

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Record. 74 ed. Rio de Janeiro. 1991

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